Um breve conto de natal


ImagemMessias aguardava encolhido no canto do muro a volta de seu amigo, doido para que passasse um transeunte a quem pudesse perguntar a hora.

De nada adiantaria, no entanto, pois não sabia a hora que Fimose, seu amigo, havia saído, de modo que era impossível aferir quanto tempo se passara.

Além do mais, se perguntasse a hora, certamente o eventual interlocutor pensaria que Messias tinha a intenção de roubar-lhe o relógio.

Notou as mãos tremerem por causa da fome e lembrou que confiara ao parceiro todo o dinheiro adquirido durante o dia limpando vidros no sinal.

Naquela época do ano as pessoas costumavam ser mais generosas e Messias conseguiu angariar uma grana razoável para seus padrões.

Pensou que talvez tivesse sido melhor ter comprado comida com o valor auferido, mas lembrou que mais tarde poderia saciar a fome no sopão que os irmãos da igreja distribuíam para a molecada da rua.

Teve a impressão de ouvir o estomago roncar, quando despontou na esquina o vulto do amigo, que caminhava apressado em sua direção.

Messias recebeu a encomenda e colocou na lata, acendeu e quando escutou o crepitar da pedra de crack pegando fogo ficou tão feliz e concomitantemente lombrado que nem se lembrou de desejar feliz natal a Fimose, seu amigo aviãozinho. 

10 thoughts on “Um breve conto de natal

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  1. Enquanto isso, em sua humilde casinha, desprovida de bens móveis – utilizados por Messias para pagar o traficante – sua mãezinha rezava ajoelhada, pedindo a Deus que protegesse seu menino, que o desviasse do caminho das drogas e que o trouxesse para casa, com um frango assado e farofa.
    Infelizmente, todas as linhas telefônicas para o Céu estavam ocupadas.
    Fimose esfaqueou Messias, que não quis dividir a pedra de crack.

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  2. É Joselito, a gente sempre pensa que o final da estória é outro, mas nossa realidade é dura. Essa turma ainda vai descriminar as drogas e aí seu conto acima será um verdadeiro conto de Natal.

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  3. Isso é verdade, conheço um ex-pintor de casa que perdeu a profissão, mulher e filhos para a droga.Sua mulher e seus dois filhos foram morar com a sogra pois não aguentava mais sustentar e ver pertences da casa sumirem.Entrar nas drogas é fácil o difícil é sair.O Brasil não produz o produto primário da cocaína,deve vir dos países do 1º mundo,pois os que fazem fronteiras com o Brasil jamais plantariam coca.

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    1. Muito oportuno o comentário, Pedrão. Interessante é ver o governo dizer combater o uso de drogas como o crack, mas não diz uma palavra sobre os aliados que detém o monopólio da droga no continente. Isso não é incompetência, mas sim uma postura deliberada que faz parte de projetos de construção de hegemonia política na América Latina, penso eu.

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  4. Hey Big Jo!

    Vai ai um vídeo do FEMEN BRASIL.

    According with my big friend Sir. William Ladiesfucker:

    “These girls have to much and better arguments to show us. Hey man! You must complain that they are pretty good girls !”
    “Unfortunately the women right’s movement is not to evolved like this one great and beauty FEMEN !”

    É…!!! Pois é !!!

    Parece que o grande Sir. William apreciou muito os exuberantes argumentos dessas boas meninas boas…

    Abraços a todos…

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  5. Se… prefiro acreditar que existe alternativa, se liberarem as drogas será assim mesmo, mas em uma escala muito maior. Afinal isso já acontece, infelizmente.

    Descriminar já descriminaram, ninguém fica preso por causa de um cigarro de maconha há anos. Querem é liberar geral. O Estado inchará mais, vão criar secretárias inoperantes para viciados e se bobear a Maconhobras.

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  6. Messias & Fimose são produtos de uma sociedade capitalista, machista, euro-centrica, homofóbica, racista.

    Eles não escolheram usar a droga, foram forçados pela burguesia de direita e pelo agronegócio.

    Eles são vítimas, que precisam, de habitação, saúde, previdência, assistência social, educação e lazer opurtunizados pelo estado – também conhecido como os contribuintes-trouxas-da-banânia, antes de serem perguntados se pretendem ou não largarem o hábito..

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